Cultuando a ignorância

Ponto e vírgula | Por Adriana Bezerra | 4 semanas atrás | 139 |

por Cógenes Lira

O culto à ignorância promovido pela família Bolsonaro não ficou restrito ao período eleitoral ou pré-eleições. Segue firme e forte. Mesclando a cultura populista, aos recorrentes ataques a imprensa, dessa vez quem tentou ludibriar o brasileiro foi o deputado Eduardo Bolsonaro, que acompanha o presidente Jair Bolsonaro na viagem a Davos.

O parlamentar – que aliás, está fazendo o que em Davos? – publicou duas notícias para mostrar disparidade entre a informação veiculada pelo El País Brasil e o mesmo veículo em sua versão espanhola (original). Eduardo tentou induzir o cidadão a acreditar que a imprensa nacional ataca gratuitamente seu pai, manipula a informação e age de má fé com sua percepção dos fatos. Seria uma espécie de complô midiático, um outro fantasma que o atual governo tenta alavancar. O primeiro, como bem sabemos, é o comunismo.

Vamos às manchetes. El País – Brasil: ‘O breve discurso de Bolsonaro decepciona em Davos’. El País – Espanha: ‘Bolsonaro anima a los ejecutivos de Davos a invertir en el nuevo Brasil’. Para Eduardo Bolsonaro, a versão espanhola demonstrou uma repercussão positiva do discurso de seu pai entre os empresários, enquanto a nacional tentou descredibilizá-lo.

Porém, o que ele não esperava é que “anima” é um falso cognato. Falso cognato são palavras escritas de modo semelhante entre duas línguas, mas cujos significados são diferentes. Anima no contexto espanhol do título do periódico tem significado de “incentiva”. Ou seja, a manchete nada mais diz do que: “Bolsonaro incentiva os executivos em Davos a investir no novo Brasil”. Cobertura jornalística feita com sucesso. Jornalismo puro e simples.

Os bots estiveram ao lado de Eduardo no Twitter, outros usuários refutaram e demonstraram a inaptidão com a língua espanhola por parte do parlamentar. Inaptidão que ele também aparenta ter com a língua portuguesa, uma vez que na manhã da quarta-feira questionou os assessores que o acompanhavam no café da manhã se “trilionário” se escrevia com a letra “H”. Complicado.

O culto à ignorância segue, porém, cada vez mais desmistificado. Talvez tivesse sido melhor para os Bolsonaro seguir sendo pedra, ao invés de telhado. O ego superou a racionalidade. Quem paga somos nós – e passará longe de ser em 48 envelopes de R$ 2 mil cada.