Guerra nos bastidores da noticia

Crônicas da vida real | Por Adriana Bezerra | 2 semanas atrás | 270 |

Uma revelação sobre o universo da mídia:
As guerras mais duras, e mais desleais, são travadas nos bastidores da notícia.
Manchetes usadas como artilharia (muitas vezes fulminante) entre desafetos.
O principal alvo – quase sempre – é a própria mídia.
Torpedeada ao tentar cumprir o seu mister de narrar fatos – as nossas crônicas da vida real.
Um desses torpedos foi lançado hoje contra o Sistema Paraíba de Televisão, afiliada da Rede Globo, ato contínuo a veiculação de matéria que expôs o peso da cruz que a Paraíba vem arrastando ao longo dos últimos oito anos.
Atacaram num flanco ainda aberto na família Carlos da Silva: o episódio que envolve o sobrinho de Eduardo Carlos, Rodolfo.
Atiram contra o sobrinho, mas o alvo – não sem enganem – é o tio.
E todo o poderio de exposição de vísceras que ele controla.
Na ausência de malfeitos em primeira pessoa, miram no plural.
Falam dele para ferir ele.
E não há nada de subliminar na ofensiva.
Quem entende do riscado, sabe como funciona:
Esquentam o que está morno.
Criam factóides como ganchos.
No caso em epígrafe, vende-se a agenda supostamente iminente do júri popular de Rodolfo.
A última movimentação no processo, porém, ocorreu dia 2 de janeiro com juntada de documentos.
Só virou manchete hoje porque a necessidade de exposição surgiu agora.
Tão nocivo quanto criar a pauta é a mensagem que sugerem:
A de que estão ofendendo a quem os ofendeu.
É um grande –e franciscano – equívoco.
Pois quando desferem socos singulares contra sistemas de comunicação, acertam de forma plural um dos os pilares mais sagrados da democracia, que é a liberdade da imprensa produzir conteúdos, debulhar investigações, tornar público o que se deseja manter no privado em prejuízo da coletividade.
Não se trata, claro, de uma exclusividade paraibana.
Esse é um fenômeno nacional, potencializado ao extremo neste instante republicano.
Em qualquer paróquia, a conseqüência é danosa.
Verdade que a mídia brasileira não está acima da crítica.
E não é – quem dera fosse – coadjuvante desinteressada ou descomprometida.
Mas precisa ser sobrevivente.
Aos seus próprios pecados.
E aos alheios:
Aos ranços particulares. Às tentativas de controle e mordaça.
Pois, apesar dos muito erros que cometemos, ainda não inventaram espelho melhor para refletir a cena brasileira – ainda que essa não seja uma contemplação agradável.