Homofobia em JP: pedras em gays; piscadela entre policiais e agressores

Crônicas da vida real | Por Adriana Bezerra | 2 semanas atrás | 3561 |

Reproduzo abaixo relato da estudante cajazeirense Suzy Maciel, partilhado em suas redes sociais, nos quais descreve um ataque homofóbico que teria testemunhado dia primeiro de janeiro na praia de Tambaú.

Um ato de violência que teria contado, segundo ela, com a cumplicidade dos policiais que atenderam a ocorrência.

Pedradas nos gays e piscadelas entre policiais e agressores – seria esse o novo Brasil que os mitomaníacos tanto desejaram (e conseguiram) instalar no País?

Veja relato:

Hoje, 1 de Janeiro de 2019

Caminhando com amigos pelo calçadão da orla de Tambaú, um final de tarde agradável, conversávamos e ríamos.
De repente eu escuto um grito: SEREMOS RESISTÊNCIA!
Olhei e vi do outro lado da calçada dois homens, um casal, que apressavam os passos enquanto gritavam para outros homens que os perseguiam: Nós somos viados sim e vocês têm que nos respeitar!

Eu não posso descrever o medo que tomou conta do meu corpo quando vi os perseguidores avançando atrás deles e gritando que a viadagem ia acabar.
As pessoas enlouqueceram e se afastaram correndo para todos os lados.
O casal atravessou a rua e estavam a cerca de 10 metros de mim quando a primeira pedra, muito grande, foi arremessada. Errou. A pedra bateu seca contra o muro. Meu corpo estremeceu novamente, aquilo não podia ser real!
Meu amigo correu para chamar a polícia enquanto o outro tentava ligar.
O homem que atirou a pedra apanhou outra e arremessou. Acertou. O homem atingido caiu no chão. Olhei para o outro lado da rua e o outro agressor aproximava-se com um facão. Era real sim. Eles queriam matá-lo. Eu estava lá, eu assisti!
As pessoas gritavam muito e corriam com seus filhos no colo. Mas eu não podia correr. Eu não os deixaria sozinhos.
Eu gritei e gritei, e comecei a chorar.
A polícia chegou, o casal estava transtornado, gritando e gesticulando que isso era inadmissível. Os policiais tentavam ouvir a todos. Chegaram dois amigos dos agressores, cercaram os policiais e disseram que viram tudo e que era o casal quem estava com provocações e ofensas. Ninguém estava defendendo o casal. Avancei, chamei um policial, me identifiquei e disse que era testemunha, enquanto eu tentava falar os agressores avançaram em mim me empurrando e me mandando calar a boca, meu amigo e um policial interviram afastando-os. Terminei meu relato e voltei pra mais perto de meus amigos enquanto ouvia os homens gritarem comigo dizendo que eu não deveria falar do que não sei.
Foi quando assisti um dos policiais piscar para o agressor que momentos antes eu vi empunhar uma faca, o homem que segundos atrás me empurrou pra que eu calasse a boca. Ele disse: saia, está liberado! Vá logo!
Depois o mesmo policial disse a eles que o agressor que atirou a pedra seria levado de carro apenas para as pessoas verem e se acalmarem, mas nem chegaria à delegacia. E completou com um leve sorriso no canto da boca: Não se preocupem isso vai acabar logo! O novo chegou esse ano!
Decidimos ir embora, os policias estavam saindo e poderia ser perigoso permanecer lá.
No caminho para casa pedi ao Uber para parar o carro rápido, desci correndo, fui até a calçada e vomitei.
Naquele vomito eu vi o rosto de vocês, o seu que me dizia que nem existe tanta homofobia assim, o seu que me garantiu que o importante seriam os concursos que melhorariam a vida das pessoas, de você que disse que o importante é que o país seja cristão. No meu vômito estavam todos vocês.

Eu entendi então que não faz sentido gritarmos que eles não nos matarão, porque eles nos matarão sim! Não faz sentido achar que todos resistiremos porque muitos de nós perecerão. Mas os sobreviventes sairão mais fortes. Voltaremos. Seremos seus filhos, seus irmãos, seus sobrinhos e seus primos.
Seu discurso vai sim matar alguns de nós, mas também nos fará mais fortes!

#Eutambémsounós